Sacrifício do pai e fuga da guerra: Vitão abre coração sobre trajetória até o Flamengo

Atualizado: 02/04/2026, 12:40
Vitão concede entrevista antes de Red Bull Bragantino x Flamengo

A chegada de Vitão ao Ninho do Urubu não foi apenas a conclusão de uma negociação de mercado, mas o ápice de uma trajetória marcada por renúncias extremas. Durante sua apresentação oficial, o zagueiro se emocionou ao relembrar o papel de seu pai, Claudinei Matos, que abandonou a profissão de pintor para garantir que o filho não desistisse do sonho nos alojamentos do Paraná e de São Paulo.

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"Sempre gostei muito de futebol, comecei a jogar futsal e, com 11 para 12 anos, fui para o campo. Quando surgiu a oportunidade de ir para o PSTC, de Londrina, fui sozinho. Tinha 13 anos, senti falta da família e dos amigos. Meu pai era pintor, ele conseguiu um quartinho lá e pegou alguns "bicos" para ficar comigo. Por isso me emocionei na minha chegada (ao Flamengo) também. Meu pai abandonou tudo para ficar perto de mim, recordou o defensor.

"Foi bastante sofrido para mim e mais ainda para ele. Abdicou de muita coisa. Eu morava no alojamento, para mim nunca faltou nada, tinha café da manhã, almoço, janta, ceia... Para o meu pai faltou muita coisa para ele estar próximo de mim", completou o defensor, em entrevista ao 'ge'

Contratado em operação de R$ 65 milhões no início do ano, Vitão se emocionou durante a apresentação como jogador do Flamengo ao lembrar do caminho até a realização do sonho. 

Vitão lembra auge na Champions e a fuga da guerra na Ucrânia

O agora defensor do Flamengo teve uma ascensão meteórica ao surgir no Palmeiras: capitão na base da Seleção Brasileira e venda precoce para o Shakhtar Donetsk. Na Europa, Vitão viveu o sonho de enfrentar o Real Madrid e outros grandes times na Champions League.

Contudo, o cenário de glória deu lugar ao terror em fevereiro de 2022. O atleta e a esposa, Camila Souza, foram acordados pelo barulho de jatos e mísseis em Kiev.

"Foram dias muito tensos. A gente estava em pré-temporada na Turquia, pronto para voltar para a Ucrânia para retomar o campeonato. As notícias já estavam circulando no Brasil, meus familiares todos perguntando, fomos conversar com o presidente, e eles nos tranquilizava. Voltamos em um domingo, sendo que o campeonato ia retomar no sábado seguinte. Treinamos segunda e terça, quando foi na madrugada de quarta a guerra estourou."

O relato de Vitão expõe o desespero de quem tinha um filho de apenas três meses no meio do conflito. No momento da invasão, a orientação era de isolamento total até que pudessem alcançar um abrigo seguro.

"Minha esposa tinha acabado de voltar para lá com meu filho de três meses. Ela acordou assustada com os jatos, claridade, e já vi a mensagem orientando que não saíssemos de casa, porque a Rússia estava atacando. De manhã, o clube informou que tinha um abrigo no hotel onde a gente concentrava. Os brasileiros combinaram de ir juntos, fomos em comboio para o hotel, no caminho poderíamos ser atacados, foi um momento bem difícil."

Defensor lutou contra o trauma antes da retomada

O retorno ao Brasil não foi imediato para o futebol. Antes de acertar com o Internacional, Vitão precisou de tempo para processar o trauma da invasão russa. Abalado psicologicamente, ele priorizou o suporte à família antes de ouvir propostas, mas manteve a palavra dada aos gaúchos assim que a FIFA liberou os empréstimos por conta da guerra.

"A retomada foi bem difícil. Assim que eu cheguei, o Internacional e outros clubes entraram em contato, mas eu não queria falar de futebol nas primeiras semanas. Minha mulher estava muito assustada, quando desembarquei minha mãe me abraçava e chorava. Precisei cuidar da minha cabeça e da minha família, não queria falar sobre futebol, mas dei minha palavra para o Internacional que, se eu optasse em ficar no Brasil, ia jogar lá. Fiquei duas semanas me cuidando, depois a Fifa abriu a possibilidade do empréstimo, e fechei com o Inter", concluiu.

Vitão deve ser titular do Flamengo ao de Léo Ortiz nesta quinta-feira (2), quando o Rubro-Negro encara o Red Bull Bragantino, pela nona rodada do Brasileirão. Apesar de relacionados, Léo Pereira e Danilo se apresentaram na quarta após jogos pela Seleção e podem começar no banco.

Foto destacada: Reprodução/ge


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Matheus Celani
Autor
Jornalista graduado no Centro Universitário IBMR, 23 anos, natural do Rio de Janeiro. Amante da escrita e um completo apaixonado pr futebol, vôlei e esportes olímpicos.